09/09/08

SAÚDE. Estresse da vida moderna, aliado a maus hábitos, tem provocado ataques do coração em pessoas de 20 a 40 anos

Aumenta número de adultos jovens vítimas de enfarto

Sedentarismo, obesidade, fumo e drogas estão entre as causas detectadas pelos médicos

A cada ano, aumenta o número de adultos jovens que chegam aos hospitais vítimas de enfartos do miocárdio. Fumo, peso acima do ideal, sedentarismo e estresse são apontados como os vilões por especialistas. No Hospital do Coração (HCor), em São Paulo, os enfartados abaixo de 40 anos járepresentam20%das vítimas.

No dia 29 de maio, enquanto corria de manhã, o militar Pedro (nome fictício), de 39 anos sentiu um incômodo no peito. Durante o dia, a sensação passou. Contudo, nos dias seguintes, ele voltou a sentir o desconforto, sempre ao realizar atividade física. Na tarde do dia 8 de junho, o incômodo aumentou e ele foi para o hospital. Lá, diagnosticaram enfarto.

"Me atenderam imediatamente e fui para a UTI", lembra Pedro. Na terça-feira, ele fez um cateterismo e, na quinta, foi submetido a uma angioplastia. "Implantaram dois stents em mim (espécie de malha metálica colocada na artéria para afastar as placas de gordura e liberara circulação sanguínea)".

Passados dois meses e meio do susto, o militar ainda está tentando entender o que aconteceu."Eu não tinha histórico de pressão alta, colesterol alto. O único fator crítico era o cigarro e o estresse. Tenho uma vida muito corrida, dedicada ao trabalho. Estava em uma fase em que me faltava tempo. Em nenhum momento pensei que fosse o coração".

Aumento
O cardiologista da Unidade Coronariana da Santa Casa de Santos e da Clínica Totalcardio Fábio de Freitas Guimarães Guerra, que agora acompanha Pedro, atesta o aumento de casos de enfartos em adultos jovens. "Este ano, na Santa Casa, já atendemos entre cinco e dez casos de pessoas com idade de 35 a 40 anos enfartadas".

Presidente da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp) ¬ Regional Santos, Antonio Mendes Neto diz que não tem dados oficiais da região que apontem para o aumento de cardiopatias em adultos jovens, mas afirma que esse é um fenômeno que está ocorrendo no mundo inteiro. Entre as causas principais, segundo o especialista, estão o fumo, o uso de drogas e a obesidade.

De acordo com o presidente da regional da Socesp, as pessoas que têm risco de enfartos são divididas em dois grupos principais: as que possuem níveis de colesterol elevado, devido à herança genética, e aquelas com prevalência de obesidade, hipertensão e diabetes.
A diferença entre os sexos também é destacada pelo especialista: nas mulheres que não fumam, não tomam pílula anticoncepcional e menstruam, ¬ portanto, contam com a proteção do hormônio estrogênio ¬ o risco de ter um enfarto do miocárdio é reduzido. Contudo, após a menopausa, essa situação tende a se alterar.

"Quando ela não produz mais estrogênio, começa a concentrar gordura no abdômen e aí aumenta a incidência (de enfartos)", explica Mendes Neto. "Praticamente cinco anos após a menopausa, a incidência se iguala à do homem", continua o médico. "A emancipação feminina teve seus custos". Conforme o supervisor de cardiologia do Hospital do Coração, Ricardo Pavanello, na Capital, pessoas com idade de 20 a 40 anos respondem, em média, a 12% dos casos de enfarto. Há dez anos, a incidência não passava de 6%. Nos Estados Unidos, ela é de 4%.

Coordenadora do Programa de Hipertensão e Diabetes da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), a cardiologista Jane Sant'Anna Nascimento Cunha também percebeu o aumento do número de casos de enfartos em pessoas jovens. "Temos que ir atrás das causas", destaca a cardiologista. "Quando ocorre por uso de droga, as seqüelas são piores", alerta a especialista.

Genes e proteínas serão mapeados
O Estado de São Paulo prepara mapa genético, inédito no Brasil, de pacientes vítimas de enfarto. O objetivo é verificar os genes que são ativados e as proteínas que o organismo de cada indivíduo sintetiza no momento do ataque. O trabalho está sendo coordenado pelo Instituto Dante Pazzanese, da Secretaria de Estado da Saúde.

Dez pacientes do sexo masculino com mais de 50 anos que chegaram ao pronto-socorro do Dante Pazzanese com enfarto, em 2007, tiveram o sangue coletado na mesma hora em que os médicos realizavam o atendimento de emergência. O material já foi enviado à Universidade da Catalunha, na Espanha, juntamente com o sangue de dez outras pessoas consideradas saudáveis, para que possam ser comparados.

De acordo com o instituto, uma tecnologia avançada chamada microarray possibilita a geração de um painel eletrônico que mostra, em computador, os genes ativados em cor verde, os inativos em vermelho e os não testados em amarelo. O resultado é uma espécie de cartão com todas as informações genéticas do paciente.

As análises laboratoriais serão encaminhadas à Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, para avaliação estatística comparativa. Para o cardiologista responsável pelo laboratório de Biologia Molecular do Dante Pazzanese, Marcelo Sampaio, essas informações são extremamente importantes porque vão além da análise anatômica do coração e das artérias das vítimas de enfarto. A conclusão do trabalho deverá ser divulgada pelo hospital no início do próximo ano.

Entrevista. Carlos Alberto Cyrillo Sellera, chefe do Serviço de Cardiologia da Santa Casa de Santos

"O risco de complicações é maior"

Houve mudança no perfil dos pacientes com problemas do coração?
Sem dúvida, a faixa etária de aparecimento das doenças cardiovasculares sofreu modificações. Sou formado há 35 anos e, cada vez mais, vejo que os jovens estão sendo acometidos por estes problemas. Antes, a doença era característica de pacientes acima da sexta década de vida.

Qual a causa disso?
Atualmente, os jovens apresentam múltiplos fatores de risco, que predispõem ao aparecimento das doenças do coração, assim como também as doenças associadas.

Que fatores são esses?
Eles apresentam mais hiper- tensão arterial, obesidade, sedentarismo, colesterol elevado, alimentação inadequada, tabagismo, uso de álcool.

E o uso de drogas?
O uso de substâncias ilícitas, como anabolizantes esteróides e cocaína, faz com que ocorram precocemente doenças dos vasos arteriais, levando à doença das artérias coronárias e conseqüente enfarto.

Quais são as seqüelas?
Quando o enfarto acomete indivíduos jovens, o risco de complicações é maior porque não há ainda no coração mais jovem circulação colateral para suprir a área afetada; quando é com um indivíduo mais idoso, já houve tempo para a adaptação do músculo cardíaco e da circulação coronariana devido ao estimulo isquêmico, com a formação de novos vasos.

O estresse também interfere?
O estresse da vida atual aumenta o risco, para homens e para mulheres, de enfarto precoce.

Qual a expectativa de sobrevida após um enfarto?
A sobrevida é de mais dez anos. Para um indivíduo de 70 anos, é aceitável; já para um indivíduo de 35 anos, não é.

PrevençãoCuidados
Para prevenir doenças do
coração,os especialistas
recomendam atividade física
regular, todos os dias 30
minutos de caminhada ajudam
a prevenir cardiopatias
A alimentação também deve
ser saudável, composta por
verduras, legumes, grãos e
frutas
ConsequênciaFumo
Dentre as seqüelas do enfarto,
os médicos relatam cansaço
excessivo, piora na qualidade
de vida e necessidade de fazer
uso de medicamentos
Pessoas que fumam, mesmo
praticando atividades físicas,
têm maiores chances de
serem vítimas de enfartos

Fonte: A Tribuna – www.atribuna.com.br
Divulgado em 1º de setembro de 2008
Por Suzana Fonseca